quinta-feira, 16 de maio de 2013

Especial: Entrevista com a cantora Pitty


Por: PunkNet

Há dez anos, ela saiu do underground baiano para estourar em todo o Brasil com a música ”Máscara”, que era diferente de tudo o que estava rolando na mídia e, mesmo assim, tocou incessantemente nas rádios e programas de TV pelo país. Vieram muitos outros sucessos e ela já soma três álbuns de estúdio, dois DVDs ao vivo e documentários, diversas participações em trabalhos de outros artistas, milhões de cópias vendidas, inúmeros prêmios, além de um bem sucedido projeto paralelo.
Pitty, que também dá nome à banda que a projetou, é o apelido de Priscilla Novaes Leone, nascida na cidade de Salvador, no dia 7 de Outubro de 1977. Ela passou pelas bandas Inkoma e Shes e cursou a Escola de Música da Universidade Federal da Bahia. Com um convite do músico e produtor Rafael Ramos, da gravadora DeckDisc, partiu para o Rio de Janeiro dar vida ao seu disco de estreia, Admirável Chip Novo. O trabalho é referência ao livro de Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo, clássico da ficção científica, e foi o álbum de rock mais vendido do país em 2003. Agora, uma década depois, a gente bateu um papo com a cantora, passando sua carreira a limpo.
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 O Admirável Chip Novo está comemorando 10 anos de lançamento. Olhando lá para trás, na época em que o disco estava sendo produzido, dava para imaginar o sucesso que ele alcançaria?
Pitty - Dava para sonhar, como a gente sonha cada vez que dá um passo na vida em direção ao que deseja- é aquele bom e velho “agora vai” - mas certeza a gente nunca tem de nada. Foi tudo aposta, risco, sorte, muito suor, planejamento e intuição; tudo junto.
Para celebrar, o álbum ganhou uma versão em vinil. Seus outros discos também já tiveram tiragens nesse formato e, ultimamente, muitos artistas tem lançado trabalhos assim. Rola uma boa aceitação do público mais como objeto de coleção ou as pessoas estão se rendendo novamente a ouvir músicas em vitrolas?
Pitty - Já vi as duas coisas, mas o que surpreendeu mesmo nessa retomada do vinil foi a vontade genuína das pessoas de terem uma experiência mais profunda com o disco, com a música. Como se muita gente quisesse se reaproximar de uma vivência mais física. Essa demanda mexeu com tudo, tanto é que vitrolas voltaram a ser fabricadas e vendidas, modelos novos, não apenas os vintage de lojas de antiguidade. A aceitação de vinil tem crescido cada vez mais, e eu acho que isso tem a ver com alimentar essa ideia: passar informação, fazer feira de vinil, um trabalho constante de reconstrução e fortalecimento dessa estética.

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 Quando pequena, que tipo de vinis costumava ter em casa? Algum desses em especial te influenciou a também querer ter uma banda?
Pitty - Todo tipo. E era só vinil mesmo, não existia CD nessa época e fita K7 bombou mais na minha adolescência mesmo. De criança eu tinha uns disquinhos de história, uns coloridos, e o meu predileto que guardo até hoje: Os Saltimbancos. Depois, um pouco mais velha, eu acabava fuçando nas coisas dos meus pais, e aí tinha Roberto Carlos, Caetano Veloso, Gil e muito Elis Regina. Tinha um compacto de Celly Campelo que eu amava, no lado A “Estúpido Cupido”, do outro “Túnel do Amor”. Eu adorava o “disquinho da maçã”, era Imagine, com John Lennon. Tinha bastante Rita Lee também e acho que no fundo tudo isso fica no subconsciente da gente e vai se desenrolando em outras coisas ao longo da vida.
Suas primeiras experiências em bandas foram com a Shes, como baterista, e a Inkoma. Como foi essa época e o que de mais importante você agregou de cada uma delas?
Pitty - Primeiro veio o Inkoma, foi a primeira banda de ralar mesmo, botar a mão na massa. Fazer fita demo, recortar e dobrar cada capinha a mão, fazer xerox de cartaz dos shows e colar nos muros, produzir os próprios shows, carregar equipamentos, fazer umas camisetas e vender na banquinha, essas coisas. A escola toda, o aprendizado todo. Era um contexto de sobrevivência e de muito amor ao som; todos nós tínhamos empregos para pagar as contas e tentávamos priorizar a banda do jeito que dava, nas brechas da vida. Durante o Inkoma rolou de conhecer as meninas da Shes e fiquei com as duas bandas ao mesmo tempo. Com a Shes eu tive a oportunidade de encontro com o feminino, que era um lado pouco desenvolvido por eu ser sempre uma garota no meio dos caras. Havia a convivência com as meninas, o “se arrumar” juntas para os shows, todas as particularidades de sermos garotas. Mas nas duas bandas tinha a mesma coisa: era tudo de garagem, na raça, na vontade de fazer um som. Esse é o melhor aprendizado que eu podia ter tido, desenvolveu minha autonomia, responsabilidade e independência; fez com que eu aprendesse a correr atrás e desse o devido valor às coisas.

Pitty 02Pitty 03Pitty 04                   Há anos você é questionada sobre como é ser uma cantora de rock que veio da Bahia, devido ao estereotipo de que todo baiano ouve axé. De tudo o que você vivenciou na cena musical de Salvador, que aspectos foram determinantes para a sua construção artística e que você não teria vivenciado em outro lugar?
Pitty - Difícil saber ao certo, porque só sei o que é ter estado nesse lugar e não em outros; então é tudo teoria, rs. O que eu sei é que existia esse sentimento de remar contra a maré, de resistência, de luta. Não é que nada era fácil, é que era praticamente impossível. Cada centímetro que a cena conquistava era comemorado, seja por uma matéria em um jornal da cidade, por um festival de rock ter acontecido ou por uma coletânea ter vingado. E a galera lá continua fazendo isso até hoje. Então eu aprendi que esse é o caminho das coisas, batalhando e sendo verdadeiro com sua arte e seu som. Ter banda de rock no Nordeste é um negócio muito “true”, porque não tem promessa de glamour, fama e dinheiro. Tem que ter amor. Lá não cola fazer um cabelinho bonitinho, botar uma roupinha style e dizer que é rock, a galera não engole essa. Digo isso por ter sido público também a minha vida inteira lá, e a sensação era essa. É isso que sei dos meus amigos, das pessoas que frequentavam shows comigo. Era o underground do underground, e isso é bom porque você não deve nada a ninguém, seu único compromisso é o amor pelo som que faz.
Seu relacionamento com o Rafael Ramos e a Deckdisc em geral é bem tranquilo em relação a manter a identidade da banda com liberdade de criação, além disso, você não faz coisas como playback na TV ou determinadas alterações nas músicas para tocar nas rádios. Sempre rolou essa preocupação de ter uma postura bem definida quanto a isso?
Pitty - Sempre foi uma coisa natural, de fazer o que se sente bem, de não fazer nada que te faça se sentir deslocado, mentiroso. Nunca foi uma coisa de birra, ou de querer ofender ninguém. É simplesmente uma postura para defender a arte e a música, para tentar manter isso o mais puro possível. É muito, muito difícil. Talvez seja uma utopia. Muitas vezes eu não consegui. Outras sim, às vezes no diálogo, às vezes às custas de me indispor com pessoas – uma pena, mas faz parte da batalha. Tem que estar disposto a dizer “não” em um mundo onde todo mundo está dizendo “sim” a qualquer custo; e arcar com as consequências disso.

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 “Me Adora” tem uma letra forte e direta sobre a mídia. Acho que desde o começo você sempre sofreu com a imprensa em relação à comparações mal colocadas ou críticas baseadas em senso comum. Recentemente, você também se queixou do fato de transformarem em manchete polêmica algo que você estava apenas comentando no Twitter. Como é ter que lidar com esse tipo de situação?
Pitty - É uma merda, mas faz parte da parada. Vou tentando eliminar esses equívocos ao longo do caminho e ficar só com as coisas legais, tentando deixar tudo claro e exercer os valores em que acredito a cada disco, a cada obra. Tem coisas que simplesmente são e você acaba fazendo parte delas por força da circunstância, mas sem se deixar transformar naquilo.
Suas letras são bastante pessoais, em que aspectos ou temáticas você acredita que suas composições tenham mudado ao longo dos anos? Tem músicas do começo da carreira que hoje em dia você não se identifique mais?
Pitty - Alguns temas são recorrentes e acho que são questões que se mói e remói uma vida inteira- todas essas coisas mais existencialistas. Nesse caso o que muda é o jeito de abordar o assunto, o ponto de vista, o vocabulário, o foco da questão; tudo isso se aprofunda com a idade. A vivência parece trazer essa sagacidade e observação menos rasa. Acho que é por isso que em relação às músicas do começo, embora eu ainda me identifique profundamente com os temas, algumas frases e abordagens não fazem mais tanto sentido pra mim.
 Segue alguma rotina para compor ou nunca tem hora/lugar?
Pitty - Não tem método nem rotina, vou do jeito que rola. E respeito muito os lampejos do inconsciente, então anoto tudo; fragmentos de ideias, frases, palavras que me cutucam na madrugada. Um dia junto os retalhos e pode ser que vire uma música.
Pitty 17Pitty 241411MM21                     Você também tem bastante influência da literatura do cinema. Quais artistas e obras mais te inspiram?
Pitty - Os existencialistas, os beatniks, os byronistas… tanto no cinema quanto na literatura. O surrealismo e a psicodelia também têm tido um espaço bom na minha vida nos últimos tempos.
 Admirável Chip Novo, Anacrônico e Chiaroscuro. De um modo geral, quanto às músicas e ao momento da banda em cada época, o que merece ser destacado de cada um desses trabalhos de estúdio?
Pitty - No Chip Novo acho que a garra, o chutar a porta e passar por ela sem pedir licença, a energia juvenil. No Anacrônico o peso mais consciente, a pesquisa de sonoridade, a segurança de quem sabe um pouco mais o que quer. E, no Chiaroscuro, o aprofundamento dessa pesquisa sonora, o aprimoramento dos timbres, a subversão pelas regras de gravação, a conquista da elegância. Tipo aquele olho calmo do cachorro mais perigoso que nem ladra, só morde.
PUNKnet – Você ousou ao deixar um pouco de lado a banda para investir no projeto paralelo Agridoce, com uma proposta e um estilo de som bem diferentes do que os fãs estavam acostumados. Apesar de ter sido algo descompromissado, rolou alguma insegurança no começo?
Pitty - Não no sentido da demanda externa, e sim de mim comigo mesma. Um desafio interno, um “será que eu vou conseguir tocar piano e cantar ao mesmo tempo, nunca fiz isso”, essas coisas. No final acabei fazendo mais do que achava que podia fazer, em termos técnicos mesmo, foi indo aos poucos, mas consegui tocar piano, cantar, operar pedal de delay, tudo ao mesmo tempo, rsrs.
 Agora, com a turnê finalizada, que balanço você faz quanto aos shows, público e repercussão que tudo isso teve?
Pitty - Foi maravilhoso ter passado por isso, foi realmente uma parada que mudou tudo e mexeu profundamente comigo. Um aprendizado enorme, de eu com os outros, com o público, com os novos instrumentos e, principalmente, comigo mesma. Foi uma viagem.
Pitty 22Pitty 28Pitty 32                 Com a banda voltando às atividades, o que podemos esperar do novo disco da Pitty?
Pitty - Não sei, só vou descobrir quando começar a fazer. Mas eu sei que estou com saudade de barulho, distorção e podreira, rs.
 Um retorno do Agridoce só deve acontecer em nova pausa do grupo ou você e o Martin pensam em conciliar as duas coisas?
Pitty - Talvez a gente consiga conciliar, nada é descartado. A gente deve dar essa parada mais na hora de gravar meu disco novo mesmo, e agora para compor, escrever. Mas a ideia é fazer uns shows do Agridoce quando der.
Levando em conta esses 10 anos desde o lançamento do primeiro álbum, teria feito alguma coisa diferente?
Pitty - Acho que não. Essas perguntas não fazem muito sentido para uma pessoa fatalista como eu, rsrs. As coisas foram o que foram porque a gente era assim, e era aquilo que podíamos e sabíamos fazer naquele momento.
Tem alguma banda dessa nova safra do rock que você costuma ouvir e recomenda para a galera?
Pitty - Tame Impala. Nem é tão nova assim, mas enfim. E Savages, que Rafa me mostrou e é massa.
 Obrigado! O espaço é seu, deixe um recado aos fãs que leram a entrevista.
Pitty - Valeu, um beijo grande a todos e nos vemos por aí nos rocks da vida.



 
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